Philippe Baden Powell

Lembranças

Há alguns meses eu estava empacotando minha mudança pra Paris e encontrei no meio dos vinis que eu estava separando pra levar, um do Miles Davis chamado "Sketches of Spain", com uma dedicatória no mínimo impressionante que dizia o seguinte: "Badeco, por tudo que eu não saberia dizer - Elis Regina". Não havia data, nem qualquer outro elemento que indicasse as circunstâncias daquela singela homenagem. Minha imaginação correu solta tentando compor um instante daquele momento. Com aquele pedaço de historia entre as mãos eu comecei a lembrar do meu pai.

Foi como eu o conheci, antes de entender quem ele era e o que ele fazia, era o meu pai que me deu o próprio nome e me ensinou tudo que um filho precisa saber: andar de bicicleta, comer macarronada sem se sujar, fazer a barba e levar a namorada pela mão. Mas ainda moleque eu entendi que ele não era só meu pai, o Baden era um homem intenso, devoto de seu instrumento e da sua música, que exalava uma genialidade sobre a qual ele mesmo não tinha domínio, e as vezes até dava a impressão de acompanhar com dificuldade o ritmo da própria criatividade gerando um conflito interno, peculiar e necessário à todos os grandes artistas. Por trás de uma timidez aparentemente serena se escondia um espírito inquieto que se alimentava de uma grande efervescência musical.

Quando completou cinqüenta anos, o Baden tinha passado metade da vida no Brasil, e a outra metade na Europa. Ao longo dos anos de uma carreira bem sucedida, ele ganhou o respeito e a admiração dos mais diversos artistas, entre os quais grandes nomes do Jazz e da música erudita. O Michel Legrand escreveu certa vez sobre ele dizendo o seguinte; 

"Dentro de nós há música
Acima de nós está a imortal, a imensa música
Mais alto ainda, há aqueles que a derramam,
que a expandem
E no topo disso
Há Baden Powell
Homem genial
Homem em forma de cordas de violão
que faz descer o seu sangue até nós
dentro da sua música
nossa música
nossa vida."

Sua discografia tem mais lançamentos do que anos de vida, sua obra é muito extensa e seu legado inestimável. Eu me surpreendo vendo a influência da sua maneira de tocar nos violonistas de hoje e de ontem, o grande numero de admiradores que ele conquistou e a sua contribuição para a música brasileira. Ele era um músico excepcional, capaz de acompanhar com a mesma virtude do solista que ele também era. Muito requisitado pelas cantoras, ele também tocou na orquestra da Radio Nacional, e sem falar nos bailes… ele era muito tarimbado: acompanhava de ouvido, tinha um repertório grande na ponta dos dedos e as vezes, muito raramente, ele saia pra dar canjas escondido. Era um músico generoso que adorava tocar para e com os amigos, vulneráveis às suas melodias e harmonias. Certa vez, me contou minha mãe, o Baden foi levar a Liza Minelli no aeroporto e à pedido dela ele ficou tocando pra esperar a chamada do vôo. Ela acabou perdendo o vôo rendida ao violão do Baden. Esse violão rasqueado que trazia o samba, o chôro e a música erudita em meio às seis cordas muitas vezes insuficientes pra tanta destreza. Ás vezes estávamos tocando em casa, e ele vinha com uma idéia nova: "- olha aqui isso aqui! Tá vendo… bom né? Eu queria fazer assim, mas no violão não dá, não tenho tanto recurso quanto no piano!". Outra vez estávamos em Paris e fomos assistir ao show de um amigo nosso, com quem tínhamos outros amigos em comum. A platéia era inclusive composta só de amigos e isso gerou um ambiente descontraído e leve. Num momento da noite o amigo em questão não resistiu e pediu ao Baden pra que ele desse uma canja. Depois da canja, a Tânia Maria (pianista e cantora), que também estava na platéia não resistiu e subiu ao palco! Me lembro como se fosse ontem! Os dois se divertiram feito duas crianças dialogando por meio de reharmonizações e improvisos que levaram a platéia ao êxtase. Memorável!

Algumas amizades do papai tinham a música como ligação principal, como a do Vinicius, por exemplo, que convidou o Baden pra fazer algumas músicas e antes que pudessem perceber se viram grandes amigos. O Baden dizia que o Vinicius tinha sido um pai pra ele. Outros amigos também foram adotados dessa mesma maneira como o Paulo César Pinheiro, que é meu padrinho de batismo junto com a Clara Nunes, a Elizete Cardoso, o Billy Blanco, padrinho de batismo do meu irmão, o Hermínio Belo, o João Nogueira, o Sivuca e outros tantos que o Baden nunca deixou de ver, e pelos quais eu tenho um grande carinho. Isso me faz lembrar do Guinga, que eu encontrei um dia andando na rua ali pelo Leblon, e começamos a conversar felizes pelo reencontro pois fazia muito tempo que ele não me via, e eu era bem novinho quando ele me conheceu. Ele me levou à casa dele e me deu um disco, o "Suíte Leopoldina" e escreveu uma dedicatória dizendo assim: "Philippe, você é meu filho também – Guinga". Eu me lembro de muitos deles chegando lá em casa pra tocar, ensaiar, bater papo ou pra cantar um samba e o Baden feliz da vida vendo a casa encher, o portão bater e quando amanhecia, ele adormecia em paz. Tem um samba dele com o Paulo César Pinheiro que diz exatamente isso:

"Quero ouvir meu portão bater,
Quero ver minha casa encher,
Como a tempos já não se faz.
Quero um copo que eu vou beber,
E quando o dia amanhecer,
Eu quero adormecer em paz."

Foi o papai que me deu as primeiras lições de música e de vida. Me ensinou teoria e solfejo, princípios de harmonia e de orquestração, me apresentou ao jazz e à musica erudita. O professor Baden era muito exigente, já o pai Baden não incentivou muito a carreira artística. Mas a música está presente na nossa família desde o Seu Vicente Thomaz de Aquino, avô do Baden, então ele acabou tendo que se conformar com o inevitável. Ele foi fundamental pro meu irmão e pra mim, dizia sempre que se a gente não "desse pro negócio" ele diria logo. Eu tomei isso como um elogio, já que ele não era muito de passar a mão na cabeça da gente. Infelizmente os anos passaram rápido demais, e mesmo tendo feito muita coisa juntos, eu sempre tenho a sensação de que faltava mais um pouco pra perguntar, pra tocar, pra dizer e pra ouvir. As lembranças que eu tenho dele são as melhores, e quando fico em dúvida sobre alguma coisa posso ouví-lo me dizendo: "Meu filho, seja escravo do instrumento, nunca deixe ele te vencer e faça como Bach, toque pra Deus!".

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